Uma geração de fundadores que construiu as suas empresas depois da independência aproxima-se da reforma. A sobrevivência dessas empresas à passagem de testemunho moldará a próxima década mais do que qualquer transacção isolada.
A sucessão nas empresas familiares de Moçambique é a transição económica que ninguém agenda, mas que todo o fundador acaba por enfrentar. Muitas das empresas privadas mais consolidadas do país foram erguidas por uma única geração de empresários, que começou nos anos a seguir à independência e ao longo da longa reconstrução que se seguiu. Esses fundadores chegam agora à reforma — e as suas empresas aproximam-se do momento mais perigoso na vida de qualquer negócio: a passagem de testemunho.
É aqui que o valor se perde em silêncio. Em todo o mundo, a maioria das empresas familiares não chega à terceira geração, e a causa raramente está no mercado. Está na própria transição — sem plano de sucessão, com propriedade e gestão emaranhadas, com disputas entre herdeiros, ou com um negócio construído inteiramente à volta das relações de uma pessoa, incluindo a relação com o banco. Uma empresa que funciona com o nome do fundador não se transfere automaticamente quando esse nome se reforma.
Uma boa passagem de testemunho é, no essencial, um exercício de estruturação. Significa separar a propriedade da gestão, formalizar a governação e as contas, e assentar o financiamento na solidez da própria empresa, e não na reputação pessoal do fundador. O paradoxo é que as empresas mais expostas são muitas vezes as bem-sucedidas, informais e lideradas pelo fundador, que nunca precisaram de se formalizar — precisamente porque sempre funcionaram.
Nada disto é apenas um assunto de família; é um projecto financeiro, e de vários anos. Avaliações, a compra das posições de familiares que saem, o refinanciamento no balanço da empresa, por vezes uma venda parcial — é esta a mecânica da continuidade. É aí que um parceiro bancário experiente ganha o seu lugar: não no momento da crise, mas anos antes, ajudando a construir uma empresa concebida para sobreviver a quem a fundou.
Moçambique gasta muita energia a atrair novo investimento. Preservar as empresas que já tem — através de uma passagem de testemunho que a maioria nunca fez — pode ser igualmente importante.



























